
Quando se fala em postos de combustíveis, a primeira imagem associada ao risco costuma ser a de um incêndio ou de uma grande explosão. Afinal, existem milhares de litros de gasolina, etanol e óleo diesel armazenados no local, além de operações frequentes de descarga e abastecimento de veículos.
A percepção é compreensível. Mas a experiência mostra uma realidade um pouco diferente.
Incêndios não constituem o principal problema dos postos de combustíveis. Historicamente, a preocupação mais recorrente está associada aos vazamentos de combustíveis, especialmente nos sistemas subterrâneos de armazenamento, e às suas consequências ambientais.
Isso não significa, evidentemente, que incêndios e explosões sejam impossíveis. Significa apenas que a presença de grandes quantidades de inflamáveis não deve conduzir automaticamente à ideia de que postos de combustíveis sejam estabelecimentos que frequentemente entram em combustão.
O problema mais traiçoeiro está, muitas vezes, debaixo da terra.
QUANDO O COMBUSTÍVEL SAI DO TANQUE
Um Sistema de Armazenamento Subterrâneo de Combustíveis – SASC é composto por tanques, tubulações, conexões e diversos outros componentes destinados a armazenar e movimentar combustíveis.
Enquanto o produto permanece contido, o perigo está sob controle.
O problema começa com a perda de contenção.
Uma falha de estanqueidade em um tanque ou tubulação pode permitir que gasolina, diesel ou outro combustível seja continuamente liberado para o solo sem que exista qualquer manifestação imediatamente perceptível na superfície.
É justamente essa característica que torna o problema particularmente perigoso.
Uma pequena poça de gasolina sobre um piso é facilmente percebida. Um vazamento subterrâneo pode permanecer durante muito tempo sem ser identificado.
E o fato de não enxergarmos o combustível não significa que ele tenha desaparecido.
Ele apenas mudou de lugar.
Os combustíveis liberados podem penetrar no solo, alcançar águas subterrâneas e se deslocar para regiões afastadas da origem do vazamento. A extensão da contaminação dependerá das características do produto, da quantidade liberada, das propriedades do solo, da profundidade do lençol freático e de inúmeras outras condições locais.
A consequência ambiental pode ser significativa.
Solo contaminado pode exigir escavação, remoção, tratamento ou outras técnicas de remediação. Quando a contaminação alcança águas subterrâneas, a solução se torna ainda mais complexa, podendo exigir meses ou anos de acompanhamento e tratamento.
Em outras palavras, o vazamento pode acontecer rapidamente; reparar suas consequências pode levar anos.
O COMBUSTÍVEL NÃO RESPEITA O MURO DO POSTO
Há outra característica extremamente importante nesses acidentes.
O limite da propriedade não constitui uma barreira para a propagação da contaminação.
O combustível pode sair do tanque, atravessar o solo, alcançar o lençol freático e migrar para propriedades vizinhas.
Por isso, uma perda de contenção ocorrida dentro de um posto pode produzir consequências em residências, estabelecimentos comerciais e estruturas públicas localizadas a dezenas ou centenas de metros de distância.
Esse aspecto é particularmente importante para a segurança de processo porque o local onde ocorre a perda de contenção não é necessariamente o mesmo local onde aparecerão suas consequências mais graves.
O combustível e, principalmente, seus vapores podem alcançar galerias de águas pluviais, redes de esgoto, galerias de cabos, poços de elevadores, poços d’água, caixas subterrâneas e outras obras existentes no subsolo.
A partir daí, um acidente inicialmente ambiental pode assumir outra dimensão.
O ACIDENTE AMBIENTAL PODE SE TRANSFORMAR EM UM PROBLEMA DE INCÊNDIO E EXPLOSÃO
A gasolina possui componentes suficientemente voláteis para formar vapores inflamáveis.
Quando esses vapores migram para uma estrutura subterrânea, podem encontrar justamente aquilo de que necessitam para criar uma situação perigosa: confinamento.
Galerias, caixas subterrâneas, redes de esgoto e outras estruturas semelhantes podem dificultar a dispersão dos vapores. Dependendo da concentração alcançada, pode formar-se uma atmosfera situada dentro da faixa de inflamabilidade.
Nesse momento, o problema deixa de ser exclusivamente ambiental.
Surge um cenário potencial de incêndio ou explosão.
A sequência física pode ser resumida de maneira bastante simples: a perda de contenção libera o combustível; o produto migra pelo solo; suas frações voláteis geram vapores; esses vapores encontram uma estrutura subterrânea; a ventilação insuficiente favorece seu acúmulo e, alcançada uma concentração inflamável, basta encontrar uma fonte de ignição.
Essa fonte pode estar muito longe do posto onde começou o vazamento.
Pode ser um equipamento elétrico, uma centelha, uma superfície aquecida ou qualquer outra fonte com energia suficiente para provocar a ignição.
Portanto, existe uma conclusão aparentemente paradoxal: o posto pode não pegar fogo e, ainda assim, um vazamento originado nele pode produzir uma atmosfera inflamável a centenas de metros de distância.
Há registros de ocorrências nas quais vapores provenientes de vazamentos em postos alcançaram redes subterrâneas e produziram condições de risco por grandes extensões. Em um dos casos documentados, foram identificadas concentrações de vapores inflamáveis em aproximadamente 800 metros de uma rede subterrânea de cabos, criando condição de risco iminente de explosão.
Isso demonstra por que a investigação não pode ficar restrita ao ponto onde o odor ou os vapores foram encontrados.
Encontrar o perigo não significa ter encontrado sua origem.
O ODOR PODE SER O PRIMEIRO SINAL
Em muitos acidentes, a descoberta da contaminação não ocorre por meio de uma inspeção do tanque.
Começa com algo aparentemente banal: alguém percebe odor de combustível.
Esse odor pode aparecer dentro de uma residência, num ralo, em uma galeria subterrânea, em um poço ou em outra instalação afastada do posto.
Há registro, por exemplo, de ocorrência iniciada pela reclamação de odor de combustível em uma residência. A investigação identificou elevadas concentrações de vapores inflamáveis, principalmente na rede pública de esgoto. Posteriormente, testes de integridade indicaram falta de estanqueidade em um tanque de óleo diesel e em duas linhas de distribuição de gasolina de um posto existente nas proximidades.
Esse exemplo é extremamente didático.
A manifestação do acidente apareceu fora do estabelecimento que o originou.
Isso também demonstra a importância de não desprezar reclamações de odor. Evidentemente, odor não é instrumento de medição e não permite estabelecer concentração ou inflamabilidade. Mas pode funcionar como sinal de alerta e justificar investigação imediata.
A partir daí entram os instrumentos apropriados.
MEDIR É FUNDAMENTAL
Quando existe suspeita de migração de vapores inflamáveis, não basta procurar visualmente pelo combustível.
É necessário monitorar a atmosfera.
O objetivo é identificar se existem vapores e, principalmente, verificar se sua concentração está se aproximando ou já se encontra dentro da região na qual a combustão se torna possível.
Essa avaliação precisa ser realizada nos pontos em que os vapores possam se acumular: caixas subterrâneas, galerias, redes, poços, edificações e demais espaços potencialmente atingidos.
E as medições precisam acompanhar a evolução do cenário.
Em uma emergência desse tipo, uma medição isolada pode ser insuficiente. A concentração pode variar com o deslocamento do produto, condições de ventilação, temperatura, nível da água subterrânea e intervenções realizadas durante o atendimento.
Por isso, monitorar significa acompanhar, não simplesmente medir uma vez.
A EMERGÊNCIA NÃO TERMINA QUANDO O VAZAMENTO PARA
Outro erro é imaginar que interromper a perda de contenção encerra automaticamente a emergência. Não necessariamente. O produto que já escapou continua no ambiente.
Pode permanecer no solo, flutuar sobre a água subterrânea, migrar lateralmente e continuar produzindo vapores.
Por isso, o controle pode exigir diversas ações simultâneas: interrupção da fonte, esgotamento de tanques, remoção de produto, ventilação ou exaustão de estruturas subterrâneas, utilização de materiais absorventes, lavagem controlada, isolamento de áreas, impermeabilização de comunicações subterrâneas e monitoramento contínuo da atmosfera.
Em ocorrência documentada, foram necessárias lavagem e esgotamento de caixas subterrâneas, aplicação de materiais absorventes, exaustão de vapores e impermeabilização de dutos para impedir a comunicação entre diferentes caixas. As operações se prolongaram por vários dias até a eliminação da condição de risco.
E existe uma distinção fundamental: eliminar a condição emergencial não significa remediar a contaminação ambiental.
Uma coisa é reduzir as concentrações de vapores e afastar o risco imediato de incêndio ou explosão.
Outra, muito diferente, é recuperar o solo e as águas subterrâneas contaminadas.
PREVENIR É MUITO MAIS BARATO
A experiência com vazamentos em postos de combustíveis deixa uma lição bastante simples.
O custo da prevenção é pequeno quando comparado ao custo de uma contaminação.
Tanques adequados, sistemas de detecção de vazamentos, controle de estoque, testes de estanqueidade, inspeção das linhas, manutenção e resposta rápida diante de qualquer indício de perda de contenção são medidas incomparavelmente mais simples do que remediar milhares de metros cúbicos de solo ou um aquífero contaminado.
Há ainda os custos indiretos: paralisação da atividade, interdição, perda de receita, contratação de empresas especializadas, investigações, monitoramentos, responsabilidade perante terceiros, danos à imagem da empresa e eventuais consequências administrativas, civis e penais.
O problema pode começar com alguns litros que desapareceram do estoque.
Pode terminar anos depois.
O POSTO NÃO É UMA BOMBA PRESTES A EXPLODIR
É importante, entretanto, não cair no exagero oposto.
Postos de combustíveis armazenam e movimentam inflamáveis e, evidentemente, exigem controles rigorosos. Mas não é tecnicamente correto tratar todo posto como se fosse uma bomba prestes a explodir.
A experiência prática mostra que o grande problema histórico dessas instalações está muito mais relacionado às perdas de contenção e à contaminação ambiental do que à ocorrência frequente de grandes incêndios.
Quando os sistemas permanecem íntegros, os combustíveis estão contidos e as operações são realizadas adequadamente, o perigo é controlável.
É justamente a perda de contenção que rompe essa condição.
E ela possui uma característica que merece ser lembrada: pode ser silenciosa.
Não há necessariamente fogo.
Não há necessariamente fumaça.
Não há necessariamente explosão.
Às vezes existe apenas um tanque perdendo combustível lentamente sob a terra.
Quando alguém finalmente percebe o problema, o combustível pode já ter ultrapassado os limites do posto, alcançado o lençol freático, contaminado propriedades vizinhas e introduzido vapores inflamáveis em galerias subterrâneas.
Por isso, quando se pensa em segurança em postos de combustíveis, a pergunta não deveria ser apenas: “Como evitar um incêndio?”
A questão anterior é muito mais importante: “Como impedir que o combustível saia de onde deveria permanecer?”
Porque, em instalações que trabalham com inflamáveis, a primeira e mais importante barreira de segurança continua sendo a contenção.