
O teclado convencional praticamente não mudou em sua essência durante décadas. Mudaram os computadores, os programas, a velocidade de processamento, a forma de trabalhar e até o local de trabalho. O teclado, entretanto, continua impondo ao usuário uma condição bastante parecida: é o trabalhador que precisa adaptar seus braços e mãos ao equipamento, e não necessariamente o equipamento ao trabalhador.
Foi justamente dessa constatação que surgiram os chamados teclados alternativos ou ergonômicos.
A proposta parece simples: modificar a geometria do teclado para favorecer posições mais naturais dos membros superiores durante a digitação. Mas, como quase tudo em Ergonomia, a solução não está simplesmente em comprar um equipamento que recebeu a palavra “ergonômico” na embalagem.
Antes é preciso compreender qual problema estamos tentando resolver.
O problema começa na postura
Observe alguém digitando durante alguns minutos em um teclado convencional.
Para posicionar as mãos sobre as teclas, normalmente os antebraços sofrem rotação, as mãos podem apresentar desvios laterais em relação aos antebraços e os punhos podem permanecer em extensão. Dependendo da altura da superfície de trabalho, os cotovelos também podem permanecer afastados do tronco.
Uma postura dessas durante alguns segundos provavelmente não significa grande coisa.
O problema aparece quando ela é repetida centenas ou milhares de vezes durante uma jornada e mantida durante horas, dia após dia.
A Ergonomia procura justamente reduzir essas exigências desnecessárias. Uma das referências básicas é a tentativa de manter mãos e punhos em posições próximas da neutralidade, evitando desvios acentuados.
É nesse ponto que entram os diferentes desenhos de teclado.
O teclado dividido
Um dos projetos mais conhecidos é o teclado dividido, também chamado de split keyboard.
Em vez de manter todas as teclas rigidamente alinhadas em uma única peça horizontal, o teclado é separado em duas regiões correspondentes, de maneira geral, às mãos direita e esquerda.
Essa divisão pode ocorrer de diferentes formas. Em alguns modelos existe maior distância entre as duas metades. Em outros, elas são posicionadas formando determinado ângulo. Há ainda modelos nos quais as duas características são combinadas.
A lógica é bastante interessante.
No teclado convencional, as mãos precisam convergir para o centro do equipamento. No teclado dividido, procura-se fazer o contrário: o teclado é que acompanha melhor a direção natural dos antebraços.
Com isso, pode-se reduzir o desvio lateral dos punhos durante a digitação.
Não significa que todo teclado dividido será automaticamente melhor para qualquer trabalhador. Significa apenas que seu desenho oferece uma possibilidade de posicionamento diferente daquela imposta pelo teclado convencional.
O teclado em forma de tenda
Outra solução é elevar as partes internas das duas metades do teclado, produzindo uma configuração semelhante ao telhado de uma casa ou a uma pequena tenda. Daí a denominação tenting.
Nesse caso, o objetivo principal está relacionado à rotação dos antebraços.
Para utilizar um teclado completamente plano, normalmente posicionamos as palmas das mãos praticamente voltadas para baixo. Um teclado inclinado lateralmente permite trabalhar com as mãos em posição menos horizontal.
É uma diferença aparentemente pequena, mas que modifica a postura dos antebraços.
Quanto maior a possibilidade de regulagem, maior também a necessidade de orientação. Afinal, uma regulagem existe para permitir adaptação ao usuário e não simplesmente para ser colocada em sua posição máxima.
Regulável não significa: quanto mais inclinado, melhor.
Inclinação negativa
Durante muito tempo tornou-se comum utilizar os pequenos pés existentes na parte posterior dos teclados para levantá-los.
Do ponto de vista visual parece confortável. Do ponto de vista biomecânico, entretanto, essa configuração pode favorecer maior extensão dos punhos.
Alguns teclados alternativos adotam justamente o princípio contrário: a chamada inclinação negativa.
A região anterior pode ser elevada de forma que o teclado fique inclinado para longe do usuário. O objetivo é favorecer maior alinhamento entre mão e antebraço, reduzindo a necessidade de manter os punhos excessivamente estendidos.
Mais uma vez, não existe ângulo mágico. O que interessa é a postura resultante.
Essa distinção é fundamental porque frequentemente avaliamos o mobiliário olhando para o equipamento, quando deveríamos olhar para a pessoa utilizando o equipamento.
E por que as teclas precisam estar todas no mesmo plano?
Essa é outra pergunta interessante.
Nossos dedos não possuem o mesmo comprimento. Mesmo assim, o teclado convencional apresenta praticamente todas as teclas organizadas sobre uma superfície relativamente plana.
Alguns projetos alternativos modificam essa concepção utilizando fileiras curvas ou cavidades côncavas, procurando aproximar as teclas da posição natural dos dedos.
A ideia é diminuir determinados deslocamentos e permitir que os dedos trabalhem em posições mais relaxadas. É uma mudança importante de conceito.
Em vez de obrigar dedos diferentes a procurar teclas distribuídas da mesma maneira, procura-se organizar as teclas considerando as características da mão.
Apoio de punho ou apoio de palma
Outro recurso bastante comum são os apoios posicionados diante do teclado. Mas aqui é preciso algum cuidado até com o nome. Um apoio utilizado inadequadamente pode concentrar pressão justamente sobre a região do punho. Por isso, muitas vezes é mais apropriado pensar em apoio para a região palmar durante momentos de repouso, e não em um local no qual o trabalhador deverá pressionar continuamente os punhos enquanto digita.
O recurso pode auxiliar no posicionamento das mãos e evitar determinadas posturas em extensão. Entretanto, sua simples existência não garante benefício.
Altura inadequada, superfície imprópria ou utilização incorreta podem transformar aquilo que deveria ajudar em mais um problema.
Esse é um princípio que vale para praticamente qualquer acessório vendido como ergonômico: um equipamento não é ergonômico por existir. Ele precisa ser adequado ao trabalhador, à tarefa e à maneira como será utilizado.
Teclados alternativos previnem lesões?
Aqui precisamos separar propaganda de Ergonomia. É perfeitamente possível demonstrar que determinados projetos modificam a postura do usuário e podem favorecer posições mais próximas da neutralidade.
Outra coisa completamente diferente é afirmar que, por isso, determinado teclado previne lesões musculoesqueléticas. Essa conclusão exige muito mais cuidado.
Os distúrbios musculoesqueléticos relacionados ao trabalho não dependem exclusivamente do formato do teclado. Repetitividade, duração da exposição, força, postura, tempo de recuperação, organização do trabalho, características da atividade, mobiliário e outros fatores participam da equação.
Portanto, melhorar uma variável pode ser desejável sem que isso permita prometer a eliminação do problema.
Essa diferença parece óbvia, mas é frequentemente esquecida. Melhorar uma postura não é sinônimo de garantir que ninguém adoecerá.
Não compre antes de experimentar
Talvez esse seja um dos maiores erros na implantação de teclados alternativos.
Alguém escolhe um modelo, considera-o “ergonômico” e compra dezenas de unidades para toda a empresa.
Depois descobre que parte dos trabalhadores simplesmente não se adapta ao equipamento.
Antes da aquisição é necessário verificar a compatibilidade com hardware e software e também com outros dispositivos utilizados, como mouse, trackball e demais periféricos.
O tamanho também importa.
Alguns teclados alternativos são mais largos, mais profundos ou mais altos que os convencionais. Podem não caber na bandeja existente, impedir sua movimentação ou exigir uma superfície de trabalho posicionada em altura diferente.
Um teclado em forma de tenda, por exemplo, pode elevar significativamente a posição das mãos. Se mantivermos a mesma altura da superfície utilizada anteriormente, podemos resolver um problema no punho e criar outro nos ombros.
Ergonomia não admite olhar uma articulação e esquecer o restante do corpo.
A tarefa também precisa ser considerada
Há trabalhadores que utilizam intensamente o teclado numérico. Outros dependem de teclas de função ou atalhos específicos.
Alguns teclados alternativos eliminam, deslocam ou reorganizam essas teclas.
Aquilo que parece uma pequena alteração de projeto pode representar grande mudança para quem executa determinada tarefa centenas de vezes por dia.
Também é preciso considerar a maneira como a pessoa digita.
Quem domina a digitação sem precisar olhar constantemente para as teclas pode adaptar-se de maneira diferente daquele trabalhador que depende visualmente delas. Uma disposição muito diferente pode reduzir inicialmente a velocidade e aumentar erros.
Isso não significa necessariamente que o teclado seja ruim.
Significa que existe aprendizado.
Existe um período de adaptação
Trocar um teclado utilizado durante anos por outro com teclas separadas, inclinadas ou distribuídas de maneira diferente e esperar produtividade normal no primeiro dia é pouco razoável.
O cérebro precisa reaprender determinados movimentos.
Nos primeiros dias podem surgir erros, redução da velocidade e até irritação do usuário.
Por isso, a implantação deve prever um período de experimentação. Uma ou duas semanas de teste pode ser uma referência útil para que o trabalhador supere o impacto inicial e consiga avaliar o equipamento com maior propriedade.
Quando houver regulagens, também não há necessidade de partir imediatamente para configurações extremas. A adaptação pode ser gradual, começando por posições mais próximas do teclado convencional.
E existe algo ainda mais importante: o trabalhador precisa participar da escolha.
Pessoas são diferentes. Tarefas são diferentes. Dimensões corporais são diferentes. Hábitos são diferentes.
Não existe razão para imaginar que um único modelo será perfeito para todos.
Se depois de experimentar alternativas um trabalhador preferir permanecer com o teclado convencional e estiver trabalhando adequadamente, essa preferência também deve ser considerada.
O teclado precisa conversar com o restante do posto
Imagine que compramos um excelente teclado alternativo. Colocamos esse teclado sobre uma mesa alta demais. O trabalhador eleva os ombros. Os cotovelos ficam afastados. O mouse permanece longe. O monitor está lateralizado. A cadeira está mal regulada.
E a pessoa permanece quatro horas consecutivas digitando sem qualquer mudança de atividade.
Temos agora um excelente teclado dentro de um péssimo posto de trabalho.
É justamente aí que algumas intervenções ergonômicas fracassam.
Procura-se um objeto para resolver um problema que pertence ao sistema de trabalho.
O conforto no trabalho com computador depende também da cadeira, da altura e das características da superfície de trabalho, do posicionamento do monitor, teclado, mouse, documentos e demais equipamentos, da iluminação e, principalmente, da própria organização da atividade.
Repetitividade e postura estática continuam existindo
Mesmo com um teclado perfeitamente adaptado, digitar continua sendo uma atividade repetitiva e frequentemente associada à manutenção prolongada de determinadas posturas.
Portanto, a intervenção não termina no equipamento.
Longos períodos contínuos de digitação devem ser analisados. Mudanças de atividade, oportunidades de recuperação e tarefas que utilizem movimentos diferentes daqueles exigidos pelo teclado e pelo mouse podem ser tão importantes quanto o desenho do periférico.
É por isso que uma avaliação ergonômica não deveria começar perguntando: “Qual teclado devemos comprar?”
A pergunta anterior é muito mais importante: “Por que este trabalhador está apresentando desconforto?”
Pode ser o teclado. Pode ser sua altura. Pode ser o mouse. Pode ser a cadeira. Pode ser a duração da atividade. Pode ser a organização do trabalho. Pode ser uma combinação de vários desses fatores.
Trocar o teclado sem investigar o conjunto pode apenas trocar o equipamento e manter o problema.
NÃO EXISTE TECLADO MILAGROSO
Os teclados alternativos são recursos interessantes e podem contribuir para melhorar determinadas posturas durante o trabalho com computadores. Teclados divididos, inclinados, em forma de tenda, com inclinação negativa ou com diferentes disposições das teclas procuram aproximar o equipamento das características biomecânicas do usuário.
Mas nenhum deles deve ser tratado como solução universal.
A escolha precisa considerar trabalhador, tarefa, mobiliário, equipamentos, organização do trabalho, compatibilidade, adaptação e preferência individual. Nos casos em que já exista desconforto ou sintomatologia musculoesquelética, a análise também pode exigir participação de profissional de saúde.
E, principalmente, é preciso abandonar uma ideia bastante conveniente para quem vende acessórios: a de que basta trocar um objeto para fazer Ergonomia. Não basta.
Ergonomia não é adaptar o trabalhador ao teclado. Também não é simplesmente comprar um teclado diferente. Ergonomia é compreender o trabalho e adaptar o sistema ao ser humano.
E, algumas vezes, o problema pode estar no teclado.
Mas dificilmente estará somente nele.