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O QUE O EMPRESÁRIO PRECISA SABER SOBRE OS RISCOS PSICOSSOCIAIS

Antonio Carlos Vendrame

Durante muitos anos, a saúde e segurança do trabalho concentraram seus esforços principalmente nos riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. No entanto, a realidade do ambiente corporativo mudou profundamente. Hoje, transtornos como ansiedade, burnout, depressão, esgotamento emocional e adoecimento psicológico passaram a ocupar posição central nas discussões trabalhistas, previdenciárias e ocupacionais.

Com a atualização da NR 1, os riscos psicossociais passaram oficialmente a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo das empresas uma postura muito mais ativa na análise das condições organizacionais de trabalho.

Mas afinal, o que isso significa na prática?

Significa que o Poder Público, os órgãos fiscalizadores e o próprio Judiciário passaram a compreender que determinadas formas de organização do trabalho podem contribuir para o adoecimento mental dos trabalhadores. A discussão deixou de ser exclusivamente médica ou individual e passou a envolver diretamente a gestão empresarial.

Isso não significa — e esse ponto é extremamente importante — que toda doença mental tenha origem no trabalho ou que a empresa seja responsável por todos os problemas emocionais da vida moderna. O ser humano possui uma vida complexa, influenciada por fatores familiares, financeiros, afetivos, sociais e pessoais. Separações, luto, dificuldades econômicas, frustrações pessoais, inseguranças e inúmeros outros elementos também impactam diretamente a saúde mental.

Entretanto, também não se pode ignorar que ambientes organizacionais mal estruturados podem agravar significativamente situações de sofrimento psicológico.

Metas desproporcionais, sobrecarga constante, jornadas excessivas, ausência de autonomia, conflitos interpessoais, comunicação agressiva, lideranças tóxicas, cobrança abusiva, falta de reconhecimento profissional e ambientes permanentemente tensionados são exemplos de fatores que podem aumentar o desgaste emocional dentro das organizações.

A grande mudança trazida pela NR 1 é justamente esta: a empresa agora precisa demonstrar que identifica, avalia e gerencia esses fatores organizacionais.

E aqui existe um erro que muitos empresários estão cometendo: acreditar que bastará aplicar um questionário ou realizar uma palestra motivacional para cumprir a norma.

Não bastará.

A própria fiscalização já vem sinalizando que o gerenciamento dos riscos psicossociais não será avaliado apenas no papel. O foco estará na coerência técnica do processo adotado pela empresa e na efetividade das medidas implementadas.

Isso significa que os auditores poderão avaliar:

  • organização do trabalho;
  • distribuição de tarefas;
  • gestão de jornadas;
  • clima organizacional;
  • níveis de sobrecarga;
  • participação dos trabalhadores;
  • evidências de ações preventivas;
  • registros internos;
  • indicadores de afastamentos;
  • entrevistas;
  • medidas corretivas adotadas pela empresa.

Outro ponto importante é que não existe metodologia única obrigatória. A norma não exige contratação específica de psicólogo nem determina aplicação obrigatória de questionários padronizados. Cada empresa poderá construir seu próprio modelo de gestão, desde que possua coerência técnica e capacidade de demonstrar atuação efetiva.

Empresas inteligentes já perceberam que a discussão sobre riscos psicossociais vai muito além da fiscalização.

Estamos falando de:

  • redução de afastamentos;
  • retenção de talentos;
  • produtividade sustentável;
  • redução de turnover;
  • melhoria do clima organizacional;
  • fortalecimento da marca empregadora;
  • diminuição de passivos trabalhistas;
  • aumento da eficiência operacional.

Ambientes organizacionais adoecidos custam caro.

Custam em absenteísmo, baixa produtividade, rotatividade, ações judiciais, conflitos internos, perda de talentos e desgaste institucional.

Por outro lado, também é necessário equilíbrio técnico na condução do tema. A gestão empresarial não pode ser demonizada. Cobrança de metas, controle operacional, busca por produtividade e gestão por desempenho fazem parte da própria lógica econômica de qualquer atividade empresarial. O problema não está na existência de metas, mas sim nos excessos, abusos e desequilíbrios que eventualmente ultrapassem os limites razoáveis da gestão saudável.

O grande desafio das empresas modernas será encontrar equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade humana.

A tendência é que os riscos psicossociais se tornem um dos temas mais relevantes da Saúde e Segurança do Trabalho na próxima década. E as empresas que tratarem o assunto apenas como burocracia documental provavelmente enfrentarão dificuldades futuras.

A nova realidade exige mudança cultural.

O PGR não pode mais ser um documento parado na gaveta.

Agora ele precisará refletir a realidade viva da organização.

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