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GES, GHE, GHR E OUTRAS DENOMINAÇÕES: O DESAFIO DE AGRUPAR TRABALHADORES SEM PERDER A REALIDADE DA EXPOSIÇÃO

Em Higiene Ocupacional, poucas ferramentas parecem tão simples na teoria e se tornam tão delicadas na prática quanto a formação de grupos de trabalhadores para fins de avaliação da exposição.

A ideia é intuitiva: em vez de medir todos os trabalhadores, agrupam-se aqueles que possuem exposições suficientemente semelhantes e utiliza-se uma estratégia de amostragem capaz de representar o grupo. Isso reduz custo, tempo e número de avaliações individuais.

O problema começa quando o agrupamento é feito apenas por cargo, setor ou função.

Dois trabalhadores podem possuir o mesmo cargo e exposições muito diferentes.

Da mesma forma, trabalhadores de cargos distintos podem executar tarefas semelhantes e apresentar perfis de exposição comparáveis.

É por isso que a formação de um grupo de exposição não pode ser um ato administrativo. É uma decisão técnica.

As várias denominações: GES, GHE, GHR e outras

Ao longo do tempo, diferentes documentos, escolas técnicas, empresas e profissionais passaram a utilizar expressões distintas para descrever agrupamentos de trabalhadores com exposições comparáveis.

Entre as mais frequentes estão:

  • GES — Grupo de Exposição Similar
  • GHE — Grupo Homogêneo de Exposição
  • GHR — Grupo Homogêneo de Risco
  • HEG — Homogeneous Exposure Group
  • SEG — Similar Exposure Group
  • eventualmente outras variações internas adotadas por empresas e consultorias

Na prática, GES e GHE são as expressões mais próximas do conceito clássico de agrupamento de trabalhadores com perfis de exposição semelhantes.

A diferença entre elas é, muitas vezes, mais terminológica do que conceitual.

A expressão Grupo Homogêneo de Exposição — GHE foi amplamente difundida no Brasil e aparece historicamente em documentos técnicos e normativos. Já a expressão Similar Exposure Group — SEG, traduzida como Grupo de Exposição Similar — GES, ganhou grande força na Higiene Ocupacional moderna, especialmente porque a palavra “similar” é tecnicamente mais prudente do que “homogêneo”.

E há uma boa razão para isso. Trabalhadores de um mesmo grupo raramente apresentam exposições absolutamente idênticas.

Eles apresentam exposições suficientemente semelhantes para que possam ser avaliados como uma população de exposição comum. Essa diferença semântica é importante. “Homogêneo” pode transmitir a falsa impressão de igualdade. “Similar” reconhece que existe variabilidade.

O grupo não representa igualdade. Representa uma distribuição comum

Esse talvez seja o ponto conceitual mais importante.

Um GES não significa que todos os trabalhadores recebem a mesma dose de contaminante, o mesmo nível de ruído ou a mesma intensidade de vibração em todos os dias.

Significa que os trabalhadores agrupados possuem condições suficientemente semelhantes para que suas exposições possam ser interpretadas como provenientes de uma mesma distribuição ou perfil de exposição.

Em outras palavras: GES não é grupo de trabalhadores com valores iguais. É grupo de trabalhadores com probabilidades de exposição comparáveis.

Isso muda completamente a forma de pensar.

Um operador pode receber 20 ppm em um dia e 40 ppm no dia seguinte. Outro trabalhador do mesmo grupo pode receber 25 ppm e 35 ppm. Os valores não são iguais.

Mas, se as tarefas, fontes, duração, controles e condições ambientais são comparáveis, ambos podem pertencer ao mesmo grupo. O que se busca não é identidade numérica.

Busca-se similaridade do mecanismo de exposição.

Cargo não define GES

Um dos erros mais comuns é transformar a descrição de cargos em agrupamento de exposição. Isso pode ser tecnicamente desastroso. Considere dois operadores de produção. Ambos possuem o mesmo cargo. Um trabalha junto a uma fonte de solvente aberta. O outro permanece a 30 metros, operando equipamento fechado. Administrativamente, são iguais. Higienicamente, não.

Agora imagine o contrário. Um operador e um auxiliar possuem cargos diferentes, mas trabalham lado a lado, executam as mesmas tarefas, permanecem o mesmo tempo junto à mesma fonte e utilizam os mesmos controles. Administrativamente, são diferentes. Higienicamente, podem pertencer ao mesmo GES. Por isso, o agrupamento deve partir da exposição, não do organograma.

O que deve ser analisado para formar um GES

A construção de um grupo exige o reconhecimento detalhado da atividade.

Entre as variáveis mais importantes estão:

  • processo e operação;
  • tarefas executadas;
  • agentes presentes;
  • fontes geradoras;
  • mecanismo de geração;
  • trajetórias e meios de propagação;
  • intensidade ou concentração;
  • duração da exposição;
  • frequência;
  • posição do trabalhador;
  • localização física;
  • turno;
  • jornada;
  • ventilação;
  • medidas de controle;
  • variações sazonais;
  • tarefas vizinhas;
  • mobilidade do trabalhador;
  • diferenças de ritmo produtivo;
  • diferenças entre equipamentos;
  • mudanças de matéria-prima;
  • eventos não rotineiros.

O agrupamento deve ser construído somente depois que essas variáveis forem compreendidas. Isso porque a exposição não é propriedade do cargo. É propriedade da relação entre: fonte + processo + ambiente + tarefa + tempo + trabalhador.

Quanto mais amplo o grupo, maior o risco de erro

Existe uma tentação natural de criar grupos grandes. Quanto maior o grupo, menor o número de amostras necessárias por trabalhador e maior a economia operacional. Mas existe um preço. Ao ampliar excessivamente o grupo, aumentam as diferenças internas.

Por exemplo, imagine trabalhadores expostos a ruído em três setores diferentes. Todos são chamados de “operadores”. No Setor A, o nível varia entre 82 e 85 dB(A). No Setor B, entre 88 e 91 dB(A). No Setor C, entre 94 e 98 dB(A).

Criar um único GES pode produzir uma média aparentemente elegante. Mas essa média pode não representar ninguém. O trabalhador do Setor A parecerá mais exposto do que realmente está. O trabalhador do Setor C parecerá menos exposto. A estatística estará correta. O agrupamento estará errado.

Por isso, quanto maior a heterogeneidade interna, menor a representatividade individual do resultado.

GES muito restrito também pode ser ruim

O extremo oposto também merece atenção. Se o profissional criar um grupo para cada trabalhador, perde-se a lógica do agrupamento. O objetivo do GES é justamente utilizar de forma inteligente a similaridade de exposições.

A formação do grupo precisa buscar equilíbrio entre: representatividade técnica e viabilidade amostral. O melhor grupo não é necessariamente o maior. Também não é necessariamente o menor.

É aquele cuja variabilidade interna ainda permite considerar seus integrantes como pertencentes a um mesmo perfil de exposição.

O trabalhador paradigma

Em muitos estudos, especialmente previdenciários e periciais, utiliza-se a figura do chamado trabalhador paradigma.

Esse conceito pode ser útil, mas precisa ser empregado com cuidado. Um trabalhador só pode representar outros se houver fundamento técnico para isso. Não basta possuir:

  • o mesmo cargo;
  • o mesmo setor;
  • a mesma empresa;
  • o mesmo período de contratação.

É necessário verificar se havia equivalência relevante de:

  • tarefas;
  • fontes;
  • duração;
  • frequência;
  • ambiente;
  • jornada;
  • controles;
  • condições de processo.

O paradigma não é escolhido porque está disponível. É escolhido porque sua exposição é representativa.

A amostra representa o grupo — mas somente se o grupo estiver correto

Essa é uma consequência fundamental. A qualidade da amostragem depende da qualidade do agrupamento. Imagine uma coleta tecnicamente perfeita:

  • equipamento calibrado;
  • método analítico correto;
  • laboratório qualificado;
  • cadeia de custódia impecável.

Ainda assim, se o trabalhador amostrado não representa o grupo, o resultado pode ser inútil para os demais. Isso revela uma verdade importante da Higiene Ocupacional: um erro na definição do GES pode ser mais grave do que um pequeno erro analítico.

Porque o problema não estará no número. Estará em para quem aquele número está sendo aplicado.

Variabilidade intra e intertrabalhador

A avaliação moderna de GES precisa compreender dois tipos diferentes de variação.

Variabilidade intratrabalhador

É a variação da exposição da mesma pessoa ao longo do tempo.

O mesmo trabalhador pode apresentar valores diferentes por causa de:

  • produção;
  • temperatura;
  • ventilação;
  • duração de tarefas;
  • abertura de equipamentos;
  • manutenção;
  • características do lote;
  • posição em relação à fonte.

Variabilidade intertrabalhador

É a diferença entre trabalhadores que teoricamente pertencem ao mesmo grupo.

Pode resultar de:

  • posição fixa distinta;
  • tarefas não equivalentes;
  • diferente ritmo de produção;
  • distância da fonte;
  • uso de equipamentos diferentes;
  • atribuições adicionais;
  • permanência diferente nas áreas de risco.

Se a variabilidade intertrabalhador for muito grande, há uma pergunta inevitável: esse GES foi corretamente constituído?

Talvez não exista um único grupo. Talvez existam dois ou três.

GHE e GES: qual termo é melhor?

Tecnicamente, eu prefiro Grupo de Exposição Similar — GES. A palavra “similar” descreve melhor a realidade. Dificilmente haverá perfeita homogeneidade de exposição entre pessoas, mesmo quando executam atividades semelhantes. A exposição ocupacional é naturalmente variável.

Por isso, a expressão GES evita a interpretação de que todos os integrantes do grupo precisam receber exatamente a mesma exposição.

Já GHE — Grupo Homogêneo de Exposição continua sendo uma denominação tradicional e amplamente compreendida, especialmente no Brasil.

Na prática, quando o conceito é corretamente aplicado, GES e GHE podem representar estruturas praticamente equivalentes.

E o GHR?

A sigla GHR — Grupo Homogêneo de Risco também aparece em algumas empresas e sistemas. Aqui é necessário cuidado. “Risco” é conceito mais amplo que “exposição”.

Risco envolve não apenas presença ou intensidade do agente, mas também probabilidade, consequência e contexto de exposição.

Por isso, utilizar GHR como sinônimo automático de GHE ou GES pode gerar ambiguidade. Uma empresa pode adotar internamente o termo GHR e utilizá-lo com o mesmo significado operacional de um GES. Isso não é necessariamente um problema.

O importante é que o documento deixe claro: qual é a definição adotada? quais critérios foram usados para formar o grupo? o que exatamente está sendo considerado homogêneo ou similar? A sigla não salva uma metodologia ruim.

GES deve ser específico por agente?

Em muitos casos, sim. Um grupo pode ser similar para ruído e não ser similar para solventes. Imagine quatro trabalhadores que permanecem no mesmo setor e possuem exposição sonora praticamente equivalente. Entretanto, apenas dois realizam limpeza manual com solvente. Para ruído, os quatro podem formar um GES. Para o solvente, talvez apenas dois.

Isso significa que o GES não deveria ser pensado apenas como propriedade da função.

Pode ser necessário formar agrupamentos diferentes para agentes diferentes.

Essa é uma das razões pelas quais matrizes de exposição podem se tornar complexas em grandes instalações.

O GES pode mudar ao longo do tempo

Outro erro comum é tratar o grupo como estrutura permanente. Ele não é. Se ocorre:

  • alteração de processo;
  • aumento de produção;
  • substituição de produto;
  • instalação de exaustão;
  • mudança de layout;
  • automação;
  • mudança de jornada;
  • alteração de tarefa;
  • substituição de equipamento;

o perfil de exposição pode mudar.

Nesse momento, o GES deve ser reavaliado. Um grupo válido em 2020 pode não ser válido em 2026. Essa questão é especialmente importante em reconstruções históricas.

Não é tecnicamente correto aplicar automaticamente a estrutura atual a períodos anteriores sem demonstrar que processo, tarefas e condições eram equivalentes.

GES e avaliação quantitativa

A formação do grupo é apenas o começo. Depois, surge outra questão: quem deve ser amostrado?

Se o objetivo é caracterizar a distribuição de exposição do grupo, a escolha deve evitar selecionar somente o trabalhador “típico”. O trabalhador aparentemente típico pode esconder os extremos. Uma estratégia adequada deve contemplar a variabilidade.

Pode ser importante amostrar:

  • diferentes trabalhadores;
  • diferentes dias;
  • diferentes turnos;
  • diferentes condições produtivas;
  • tarefas críticas;
  • períodos de maior emissão.

Quanto mais variável o processo, mais importante é construir uma estratégia que capture essa variabilidade.

A falsa segurança da média

Imagine um GES com resultados: 12, 14, 16, 18, 20, 22, 25 e 70 ppm.

A média pode parecer relativamente confortável dependendo do limite adotado.

Mas o valor de 70 ppm merece investigação.

Ele pode representar:

  • erro analítico;
  • tarefa diferente;
  • falha de ventilação;
  • evento não rotineiro;
  • trabalhador mal classificado;
  • exposição real importante.

Excluir automaticamente esse valor porque “atrapalha a média” pode destruir justamente a informação mais relevante da avaliação. Um outlier pode revelar que o grupo não é homogêneo. Ou que o processo possui cenários críticos.

GES e estatística caminham juntos

A grande vantagem dos grupos de exposição está justamente na possibilidade de trabalhar com conceitos estatísticos. Uma população de exposições pode ser descrita por:

  • média aritmética;
  • mediana;
  • média geométrica;
  • desvio-padrão geométrico;
  • percentis;
  • probabilidade de ultrapassagem;
  • intervalos de confiança.

Em exposições ocupacionais, distribuições lognormais aparecem com frequência porque muitos fatores atuam de forma multiplicativa.

Mas o ponto central continua sendo anterior à estatística: antes de calcular a distribuição, é necessário ter certeza de que os dados pertencem à mesma população de exposição.

Caso contrário, pode-se produzir uma estatística impecável de um grupo que não existe tecnicamente.

O maior erro possível: usar o GES apenas para economizar amostras

É verdade que a utilização de grupos permite reduzir custos. Mas essa não deveria ser sua principal justificativa. O verdadeiro objetivo é permitir uma avaliação estatisticamente coerente de uma população de trabalhadores submetidos a exposições similares. A economia é consequência.

Quando o raciocínio é invertido — primeiro decide-se quantas amostras a empresa quer pagar e depois se criam os grupos para caber nesse número — o GES deixa de ser ferramenta técnica e vira mecanismo administrativo. Essa inversão é perigosa.

Uma definição prática

Se fosse necessário traduzir todo o conceito para uma definição operacional, eu utilizaria: Grupo de Exposição Similar é o conjunto de trabalhadores cujas atividades, fontes de exposição, condições operacionais, duração, frequência e ambientes de trabalho são suficientemente semelhantes para que suas exposições possam ser tratadas como pertencentes a um mesmo perfil ou distribuição de exposição.

Essa definição possui uma vantagem. Ela não promete igualdade. Promete comparabilidade técnica.

Finalizando

GES, GHE, GHR, SEG ou HEG são siglas que podem variar conforme país, empresa, documento ou escola técnica. Mas o verdadeiro desafio não está na sigla. Está na pergunta: esses trabalhadores realmente podem ser representados pela mesma população de exposição?

Para responder corretamente, é necessário conhecer:

  • o processo;
  • a tarefa;
  • o agente;
  • a fonte;
  • o ambiente;
  • o tempo;
  • os controles;
  • a posição do trabalhador;
  • a variabilidade da operação.

A formação de grupos de exposição é uma das decisões mais importantes de toda avaliação de Higiene Ocupacional.

Porque, depois de criado o grupo, uma única medição pode passar a representar dezenas ou centenas de pessoas.

E exatamente por isso, o agrupamento não pode ser feito por conveniência.

Quanto maior o alcance da inferência, maior deve ser o rigor na definição de quem realmente pertence ao grupo.

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