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DOENÇAS DAS VIBRAÇÕES

Vibração de mãos e braços

A exposição à vibração transmitida às mãos e braços pode causar diversos efeitos adversos à saúde, principalmente nas extremidades superiores.

Os principais efeitos da vibração no sistema mão-braço são de ordem vascular, neurológica, osteoarticular e muscular. O conjunto de sintomas associados à exposição à vibração transmitida às mãos é comumente referido como síndrome de vibrações mão-braço (HAVS).

Aqui estão os efeitos detalhados:

1. Transtornos vasculares

O efeito mais frequente e estudado é o Fenômeno de Raynaud de origem profissional, também conhecido como Dedo Branco Induzido por Vibração (VWF).

Caracteriza-se por episódios de dedos brancos ou pálidos, causados pela oclusão espástica das artérias digitais.

Os ataques são geralmente desencadeados pelo frio e duram de 5 a 40 minutos.

Durante um ataque, pode haver perda completa de sensibilidade táctil.

A recuperação, frequentemente acelerada por calor ou massagem, pode resultar em vermelhidão dos dedos afetados devido a um aumento reativo do fluxo sanguíneo.

Em casos avançados, ataques vasospásticos graves e repetidos podem levar a alterações tróficas, como ulceração ou gangrena na ponta dos dedos.

Os trabalhadores com “dedos brancos” frequentemente relatam atenuação da força (mesmo sem alterações musculares aparentes), intolerância ao frio, dor e cãibras.

Parte destas lesões são irreversíveis, levando a limitações profissionais e pessoais e menor qualidade de vida.

A evolução da doença é mais rápida e intensa com a continuidade da exposição às vibrações.

A semiologia do síndrome mão-braço, incluindo alterações na cor da pele (principalmente dedos), costuma surgir nos primeiros dias após a lesão por vibração (75% dos casos) e geralmente não diminui com o tempo. A patofisiologia é complexa e não totalmente esclarecida. Os sintomas regridem com o aumento da temperatura ambiente, mas pioram e se generalizam com a evolução da situação. A etiologia pode estar relacionada ao vasoespasmo.

2. Transtornos neurológicos periféricos

Trabalhadores expostos podem sofrer formigamento (parestesia) e adormecimento (parestesia) dos dedos e mãos.

Com a continuação da exposição, estes sintomas tendem a piorar e podem interferir na capacidade de trabalho e atividades diárias.

Em reconhecimentos clínicos, trabalhadores expostos podem apresentar limiares vibratórios, térmicos e tácteis mais elevados.

A exposição contínua pode, além de deprimir a excitabilidade dos receptores da pele, induzir alterações patológicas nos nervos dos dedos, como edema perineural, fibrose e perda de fibra nervosa.

A neuropatia por vibração parece se desenvolver independentemente de outros transtornos induzidos por vibrações.

3. Transtornos nos ossos e juntas (osteoarticulares)

As lesões ósseas e articulares induzidas por vibrações são controversas.

Alguns autores consideram que estes transtornos não são específicos nem diferentes dos causados pelo envelhecimento ou trabalho manual pesado.

Outros pesquisadores relatam que a exposição prolongada pode produzir alterações esqueléticas características nas mãos, punhos e cotovelos.

Estudos anteriores revelaram alta prevalência de vacúolos e cistos ósseos nas mãos e punhos de trabalhadores expostos, embora estudos mais recentes não tenham mostrado aumento significativo em comparação com grupos de controle.

Foi relatada alta prevalência de osteoartrose de punho e artrose/osteofitose de cotovelo em trabalhadores expostos a choques e vibração de baixa frequência e alta amplitude (por exemplo, com ferramentas pneumáticas de percussão).

Há pouca evidência de aumento de transtornos ósseos e articulares degenerativos devido a vibrações de média ou alta frequência (por exemplo, de motosserras ou amoladoras).

Dor localizada, inchaço, rigidez e deformidades das articulações podem estar relacionadas aos achados radiológicos de degeneração óssea e articular.

Alterações nos ossos e juntas incluem descalcificação, degeneração dos ossos carpo, metacarpo e falanges, artrose e alteração degenerativa das juntas.

4. Transtornos musculares

Trabalhadores expostos a vibrações podem queixar-se de fraqueza muscular (astenia) e dor nas mãos e braços.

A fadiga muscular pode causar incapacidade.

Alguns estudos relatam diminuição da força de preensão da mão.

Sugere-se lesão mecânica direta ou dano no nervo periférico como possíveis fatores etiológicos.

Outros transtornos relacionados ao trabalho reportados incluem tendinite e tenossinovite nas extremidades superiores, e contratura de Dupuytren. No entanto, a associação com a vibração transmitida às mãos não é conclusiva, parecendo mais ligada ao estresse ergonômico do trabalho manual pesado.

5. Outros transtornos

 Alguns estudos sugerem que trabalhadores afetados pela doença das vibrações podem ter um risco adicional de deterioração auditiva, possivelmente devido à vasoconstrição simpática reflexa induzida pela vibração nos vasos sanguíneos do ouvido interno. A hipoacusia, lesões do ouvido interno e transtornos auditivos são reconhecidos como consequência de trabalhos realizados em certas condições, incluindo exposição a vibrações. Um estudo encontrou que vibrações de corpo inteiro intensas a frequências superiores a 40 Hz podem causar danos e alterações do sistema nervoso central.

Algumas escolas de medicina do trabalho reportam efeitos adversos que afetam o sistema endócrino e o sistema nervoso central de trabalhadores expostos à vibração, referidos como “doença das vibrações”. Este quadro clínico pode incluir fadiga persistente, dor de cabeça, irritabilidade, perturbações do sono, impotência e anomalias eletroencefalográficas. No entanto, estes achados são controversos e carecem de evidências objetivas consistentes.

As doenças osteomusculares e angioneuróticas provocadas por vibrações estão incluídas no quadro de doenças profissionais em sistemas de Segurança Social. As vibrações transmitidas à extremidade superior por maquinarias e ferramentas e as vibrações de corpo inteiro são consideradas agentes cujas afecções são reconhecidas como doenças profissionais. Em alguns países (França, Alemanha, Itália), os transtornos ósseos e articulares em trabalhadores que utilizam ferramentas manuais vibrantes são considerados doença profissional, e os trabalhadores afetados são compensados.

A severidade da vibração transmitida às mãos e seus efeitos biológicos são influenciados por diversos fatores, incluindo o espectro de frequência, magnitude, duração diária e total da exposição, configuração da exposição (contínua, intermitente), método de trabalho, forças aplicadas pelo operador, posicionamento das mãos, braços e corpo, tipo e condição do equipamento, área e localização das partes da mão expostas, direção da vibração, condições climáticas (especialmente o frio) e agentes que afetam a circulação periférica (como fumo, medicamentos, drogas, álcool). A resposta dinâmica do sistema dedo-mão-braço (impedância mecânica, transmissibilidade, energia absorvida) e características individuais (saúde, treinamento, destreza, uso de luvas, suscetibilidade individual) também são importantes.

Vibração de corpo inteiro

A exposição à vibração de corpo inteiro, transmitida ao corpo quando o indivíduo está sentado, em pé ou deitado, pode causar diversos efeitos adversos à saúde. Este tipo de vibração ocorre tipicamente em trabalhos com máquinas pesadas como tratores, empilhadeiras, caminhões, ônibus, aeronaves, máquinas de terraplanagem, grandes compressores e máquinas industriais. No transporte terrestre, marítimo e aéreo também podem ocorrer vibrações que causam mal-estar, interferem nas atividades ou ocasionam lesões.

Os efeitos da vibração no ser humano dependem das frequências que a compõem. As baixas frequências, geralmente de 1 a 80-100 Hz, são as mais prejudiciais, pois nessa faixa ocorre a ressonância das partes do corpo humano. Vibrações na faixa de 1 a 20 Hz, consideradas de baixa frequência e grande amplitude, são enquadradas como vibração de corpo inteiro. Vibrações inferiores a aproximadamente 0,5 Hz podem causar enjoo induzido por movimento, que não é um processo patológico, mas uma resposta normal a estímulos de movimento incomuns.

Os principais efeitos à saúde relatados para a vibração de corpo inteiro incluem:

1. Transtornos musculoesqueléticos

Problemas na região dorsal e lombar.

Problemas nos discos intervertebrais.

Degenerações da coluna vertebral. Estudos epidemiológicos frequentemente indicam um risco elevado para a saúde da coluna vertebral em trabalhadores expostos por muitos anos a vibrações intensas de corpo inteiro. Vibrações intensas e de longa duração podem afetar negativamente a coluna e aumentar o risco de desconforto lombar. Tais desconfortos podem ser consequência secundária de uma alteração degenerativa primária das vértebras e discos intervertebrais. A parte mais frequentemente afetada é a região lombar da coluna vertebral, seguida da região torácica. Relatos apontam um risco significativamente maior de deslocamento de discos lombares. A condução profissional de veículos e o pilotar de helicópteros são fatores de risco importantes para desconfortos lombares e transtornos nas costas. Há registros de aumento de aposentadorias por invalidez e licenças médicas prolongadas devido a transtornos relacionados a discos intervertebrais entre operadores de guindastes e condutores de tratores. As doenças osteomusculares provocadas por vibrações estão incluídas no quadro de doenças profissionais em sistemas de Segurança Social.

Fraqueza muscular (astenia).

Aumento do tônus muscular e contrações musculares.

Dor no pescoço (cervicalgia), dor na coluna lombar (lombalgia) e dor na coluna dorsal (dorsalgia).

Alterações esqueléticas e articulares, como alteração degenerativa das juntas, embora para vibrações de corpo inteiro, as lesões ósseas e articulares sejam mais frequentemente associadas a traumatismos na coluna vertebral, e alterações degenerativas nos ossos dos pés em operadores em pé expostos a frequências acima de 40 Hz.

2. Transtornos neurológicos e do sistema nervoso central

Sensação geral de desconforto.

Sintomas na cabeça e dor de cabeça (cefaleia).

Problemas de equilíbrio, desequilíbrio.

Alterações do sistema nervoso central. Vibrações intensas com frequências superiores a 40 Hz podem causar danos e alterações do sistema nervoso central.

Lentidão de reflexos.

Formigamento (parestesia) e adormecimento (parestesia), embora estes sejam mais proeminentes em vibrações mão-braço, a semiologia da síndrome mão-braço pode surgir.

Transtornos no sistema nervoso, órgão vestibular e audição. Pode haver alterações da função vestibular, mais significativas em frequências muito baixas ou próximas à ressonância do corpo inteiro. Alguns resultados sugerem menor excitabilidade vestibular e maior incidência de outras alterações vestibulares, incluindo vertigem. No entanto, a incerteza persiste quanto às relações causais devido a relações paradoxais entre intensidade e efeito.

Alguns estudos encontraram aumento de desconfortos inespecíficos, como dor de cabeça e aumento da irritabilidade.

3. Transtornos vasculares e circulatórios

Perda do equilíbrio, simulando uma labirintite.

Alteração no sistema cardíaco, com aumento da frequência de batimento do coração (taquicardia).

Transtornos periféricos, como o síndrome de Raynaud, perto do ponto de aplicação da vibração de corpo inteiro (por exemplo, os pés de operadores em pé).

Varizes nas pernas, hemorroidas e varicocele.

Cardiopatia isquêmica e hipertensão.

Alterações neurovasculares.

4. Transtornos gastrointestinais

Problemas gastrointestinais.

Dor abdominal e dores digestivas.

Náusea e vômito, especialmente com vibrações de baixa frequência. Estes são sintomas proeminentes do enjoo induzido por movimento, causado por vibrações abaixo de 0,5 Hz.

Transpiração aumentada (diaforese/sudorese aumentada).

5. Transtornos do sistema reprodutivo e geniturinário

Problemas no sistema reprodutivo.

Alterações genito-urinárias.

Desejo de urinar.

Em mulheres, risco aumentado de aborto, alterações menstruais e anomalias posicionais (como desprendimento de útero). Não há um limiar de exposição seguro para evitar estes riscos.

Estudos em animais sugerem que a vibração de corpo inteiro pode afetar o feto, embora não haja relato de efeito prejudicial direto no feto humano.

6. Transtornos sensoriais (além do vestibular)

Desordens no sistema visual.

Alterações visuais, diminuição da acuidade visual. A vibração pode deteriorar a aquisição de informação pelos olhos.

Problemas auditivos. Exposição combinada de longa duração a ruído e vibrações de corpo inteiro pode causar um aumento adicional dos deslocamentos permanentes do limiar auditivo. A vibração de corpo inteiro pode induzir deslocamento adicional significativo do limiar auditivo em certas frequências (3, 4, 6 e 8 kHz) se a aceleração ponderada exceder um certo valor com exposição simultânea a ruído acima de 80 dBA.

Alteração do ritmo respiratório, com suspiros e bocejos, e hiperventilação.

7. Outros efeitos

Fadiga, falta de sono.

Estresse.

Em casos de exposição breve, podem ocorrer alterações fisiológicas menores como taquicardia, hiperventilação, cefaleia, desequilíbrio e diminuição da acuidade visual.

A exposição crônica pode levar a alterações irreversíveis (sobretudo a nível musculoesquelético e dos discos intervertebrais).

Um complexo característico de sintomas e alterações patológicas no sistema nervoso central, musculoesquelético e circulatório, observado em operadores que trabalham em pé em máquinas de vibrocompactação de concreto expostos a níveis elevados de vibração acima de 40 Hz, tem sido chamado de “doença das vibrações”. No entanto, este termo, aplicado a um quadro clínico vago de longa exposição a vibrações de corpo inteiro de baixa frequência (manifestando-se como transtornos vegetativo-vasculares periféricos e cerebrais inespecíficos), é rejeitado por muitos especialistas. Os sistemas fisiológicos diferentes reagem independentemente uns dos outros, e não há sintomas únicos que sirvam como indicador de patologia induzida por vibração de corpo inteiro.

É importante notar que, para muitos dos efeitos, as vibrações de corpo inteiro são apenas um entre um grupo de fatores causais, contribuindo juntamente com ruído, elevada tensão mental e trabalho em turnos, por exemplo. A severidade dos efeitos biológicos é influenciada por diversos fatores, como frequência, magnitude, duração da exposição, condições climáticas e características individuais.

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