
A Segurança e Saúde no Trabalho desenvolveu, ao longo de décadas, enorme capacidade para identificar, avaliar e controlar exposições ocupacionais. Medimos concentrações de agentes químicos, níveis de pressão sonora, temperaturas, vibrações e inúmeras outras variáveis. Comparamos os resultados obtidos com limites de exposição e, quando necessário, implantamos medidas de controle. Tudo isso é absolutamente necessário.
Mas talvez exista uma pergunta anterior que nem sempre fazemos: Por que o perigo precisa continuar existindo?
Essa pergunta muda completamente a forma de enxergar a prevenção.
Quando encontramos um trabalhador exposto a determinado agente químico, por exemplo, nosso raciocínio normalmente parte da existência daquele agente como uma condição praticamente imutável do processo. A partir daí, começamos a pensar em ventilação local exaustora, enclausuramento, redução do tempo de exposição, procedimentos operacionais, proteção respiratória, luvas e outras medidas.
Ou seja: aceitamos inicialmente o perigo para depois descobrir como conviver com ele.
Talvez devêssemos inverter a lógica.
Antes de perguntar “como controlar a exposição?”, deveríamos perguntar: “É possível eliminar aquilo que produz a exposição?” Parece uma diferença meramente semântica. Não é. É uma diferença de filosofia de prevenção.
MEDIR NÃO É PREVENIR
Existe uma tendência na Higiene Ocupacional de transformar a avaliação quantitativa no centro do processo preventivo.
Identifica-se o agente, realiza-se a avaliação, obtém-se determinado resultado e compara-se esse valor com um limite de exposição ocupacional.
Se o resultado estiver abaixo do limite, surge naturalmente uma sensação de segurança.
Entretanto, medir exposição não significa prevenir exposição.
A avaliação quantitativa é uma ferramenta extraordinariamente importante para conhecer uma condição ambiental, dimensionar uma exposição, verificar a eficácia de controles e subsidiar decisões. Mas o instrumento de medição não elimina perigo algum.
O dosímetro não reduz ruído. A bomba de amostragem não elimina contaminantes. O termômetro não reduz calor. Medir é conhecer. Prevenir é intervir.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Da mesma forma, um limite de exposição não deveria ser interpretado como uma fronteira absoluta separando um ambiente “perigoso” de outro “seguro”. Limites são referências técnicas para gerenciamento da exposição. Não deveriam impedir que se procure uma solução melhor quando ela for tecnicamente possível.
Se conseguimos eliminar uma exposição desnecessária, por que deveríamos simplesmente administrá-la porque seu valor se encontra abaixo de determinado limite?
A HIERARQUIA QUE TODOS CONHECEM, MAS NEM SEMPRE PRATICAM
Praticamente todo profissional de SST conhece a hierarquia das medidas de controle.
No topo estão eliminação e substituição. Depois aparecem as medidas de engenharia, medidas administrativas e, finalmente, os equipamentos de proteção individual.
É difícil encontrar um curso de segurança do trabalho que não apresente essa hierarquia. O problema começa quando saímos da sala de aula e entramos na fábrica.
Na prática, frequentemente começamos pelo meio ou pelo final da hierarquia.
Existe um produto químico perigoso? Vamos colocar exaustão. Ainda existe exposição? Vamos estabelecer um procedimento. Continua existindo risco? Vamos fornecer respirador, luvas, óculos e vestimenta.
Talvez somente depois alguém pergunte: Precisamos realmente utilizar esse produto? A pergunta deveria ter sido a primeira.
Não significa que ventilação, enclausuramento ou EPI sejam medidas inadequadas. Muito pelo contrário. Existem inúmeras situações nas quais são indispensáveis e outras em que constituem a única alternativa tecnicamente disponível.
O equívoco está em transformar essas soluções na primeira resposta sem antes investigar a possibilidade de atuar sobre a própria origem do problema.
O MELHOR CONTAMINANTE É AQUELE QUE NÃO É GERADO
Imagine determinado processo industrial utilizando uma substância de elevada toxicidade. Podemos instalar uma excelente ventilação local exaustora. Podemos enclausurar equipamentos. Podemos monitorar continuamente as concentrações ambientais. Podemos fornecer proteção respiratória. Podemos treinar trabalhadores. Podemos estabelecer procedimentos rigorosos de manutenção.
Tudo isso pode produzir um sistema de controle tecnicamente muito eficiente. Mas continuaremos possuindo uma substância perigosa. Ela continuará sendo adquirida. Transportada. Armazenada. Transferida. Manipulada. Utilizada. Descartada.
E continuará podendo participar de vazamentos, derramamentos, falhas de equipamentos, intervenções de manutenção e situações emergenciais.
Agora imagine que seja tecnicamente possível modificar o processo e eliminar essa substância. Perceba a diferença. Não reduzimos apenas a exposição do operador durante a produção.
Eliminamos ou reduzimos simultaneamente uma sucessão de possibilidades de exposição envolvendo almoxarifado, transporte interno, manutenção, limpeza, resíduos, situações acidentais e demais etapas do processo.
É por isso que atuar na fonte possui uma força preventiva incomparavelmente maior.
MAS SUBSTITUIR NÃO SIGNIFICA SIMPLESMENTE TROCAR
Aqui aparece outro problema. Substituição é frequentemente apresentada de maneira excessivamente simplificada. Retira-se um produto perigoso e coloca-se outro “menos perigoso”. Fim do problema? Nem sempre.
A história da indústria está repleta de substituições que resolveram determinado problema e criaram outro, a exemplo da substituição dos solventes aromáticos pelos isocianatos na indústria calçadista.
Um solvente pode ser substituído porque apresenta elevada toxicidade e a alternativa introduzir maior inflamabilidade.
Uma substância prejudicial ao meio ambiente pode ser substituída por outra cuja toxicidade ocupacional seja pouco conhecida.
Um processo químico pode ser eliminado e substituído por uma operação mecânica que introduza ruído, vibração ou risco de acidente.
Uma operação automatizada pode eliminar determinado contato químico e criar novos riscos relacionados à manutenção.
Até mesmo a substituição de uma operação química por uma atividade predominantemente manual pode diminuir o risco químico e aumentar significativamente a sobrecarga biomecânica. Portanto: não basta substituir. É preciso avaliar a substituição.
Esse talvez seja um dos maiores erros de algumas políticas de substituição de agentes químicos.
Analisa-se aquilo que está sendo retirado com enorme profundidade e aquilo que está entrando com surpreendente superficialidade.
A pergunta correta não é: “A alternativa é menos tóxica?” A pergunta deveria ser: “Qual é o conjunto de perigos introduzidos pela alternativa e como ele se compara ao conjunto de perigos existentes no processo atual?” Isso é prevenção.
NÃO DEVEMOS TRANSFERIR O PROBLEMA DE LUGAR
Existe ainda outra situação particularmente interessante. Às vezes acreditamos ter eliminado um problema quando, na realidade, apenas mudamos seu endereço.
Considere novamente uma ventilação local exaustora. Capturamos determinado contaminante próximo à fonte e impedimos que ele alcance a zona respiratória do trabalhador. Excelente. Mas para onde foi esse contaminante?
Se houver sistema de tratamento, poderá ficar retido em filtros, carvão ativado ou outro meio, que posteriormente precisará ser manipulado e descartado.
Se não houver tratamento adequado, poderá simplesmente ser lançado para o ambiente externo. Sob a perspectiva estritamente ocupacional daquele posto de trabalho, o controle pode ter funcionado perfeitamente. Sob uma perspectiva global, entretanto, talvez tenhamos apenas transferido o contaminante.
Do trabalhador para o filtro. Do filtro para o resíduo. Da fábrica para a atmosfera. De um departamento para outro. Ou de uma população exposta para outra. Uma prevenção verdadeiramente eficiente precisa observar o processo como um sistema.
O PROFISSIONAL DE SST PRECISA ENTRAR ANTES
Há também uma questão organizacional importante. Em muitas empresas, o profissional de SST somente é chamado quando o processo produtivo já está definido.
Nossa experiência revela que apenas pontualmente o engenheiro de segurança é chamado a opinar num projeto executivo de indústria.
A engenharia projetou. Compras adquiriu. Produção instalou. O produto químico foi escolhido. A máquina chegou. O processo começou a funcionar. E então alguém pergunta: “Como vamos proteger o trabalhador?”
Nesse momento, grande parte das alternativas mais eficientes de prevenção já foi eliminada. Modificar um processo depois de instalado é muito mais difícil do que projetá-lo corretamente desde o início.
Por isso, talvez uma das maiores evoluções necessárias na SST seja deixar de atuar exclusivamente depois da decisão industrial e começar a participar da própria decisão industrial.
O profissional de SST deveria participar da escolha de matérias-primas, produtos químicos, equipamentos, tecnologias e processos.
Não apenas para dizer se determinada solução atende ou não a um requisito. Mas para perguntar: Existe uma maneira menos perigosa de fazer isso?
DE CONTROLADOR DE EXPOSIÇÕES PARA PREVENTOR DE PERIGOS
Talvez esteja aí uma mudança importante para a própria Higiene Ocupacional.
Durante muito tempo, formamos excelentes profissionais capazes de avaliar exposições e recomendar medidas para controlá-las.
Precisamos continuar fazendo isso. Mas podemos ir além. O profissional não deveria ser chamado apenas para descobrir qual respirador utilizar diante de determinado contaminante.
Deveria participar da discussão sobre por que aquele contaminante está sendo utilizado. Não deveria apenas calcular a vazão necessária de um sistema de exaustão. Deveria perguntar se existe uma tecnologia capaz de impedir a geração daquele contaminante.
Não deveria apenas medir a exposição depois que a fábrica começou a funcionar. Deveria participar da concepção do processo antes que a exposição exista.
Essa mudança desloca a SST de uma posição predominantemente reativa para uma posição verdadeiramente preventiva.
PRIMEIRO ELIMINE. DEPOIS CONTROLE O QUE RESTAR.
Não existe processo industrial absolutamente isento de perigos. Também seria ingenuidade imaginar que eliminação e substituição serão tecnicamente possíveis em todas as situações. Não serão.
Sempre existirão situações nas quais teremos de recorrer a enclausuramento, ventilação, automação, medidas administrativas e equipamentos de proteção individual.
A questão é outra. Essas medidas deveriam controlar aquilo que não conseguimos eliminar, e não substituir automaticamente a investigação sobre a possibilidade de eliminação.
Talvez precisemos recuperar a simplicidade da própria lógica preventiva. Antes de medir, precisamos compreender. Antes de controlar, precisamos questionar. Antes de colocar uma barreira entre o trabalhador e o perigo, precisamos perguntar se conseguimos retirar o perigo dali.
E, antes de substituir qualquer coisa, precisamos ter certeza de que não estamos simplesmente trocando um problema conhecido por outro que ainda não conhecemos.
A verdadeira prevenção não começa no trabalhador. Começa na fonte.