
A exposição ocupacional a agentes biológicos apresenta uma característica que a diferencia de muitos outros riscos presentes nos ambientes de trabalho: frequentemente, o perigo não pode ser percebido pelos sentidos humanos. Microrganismos, partículas contaminadas e bioaerossóis podem estar presentes no ambiente sem qualquer indicação visual de sua existência.
Nas atividades laboratoriais, de pesquisa, diagnóstico, assistência à saúde, produção farmacêutica e em outros processos envolvendo materiais potencialmente contaminados, determinadas operações podem provocar a dispersão desses agentes no ambiente. Pipetagem, homogeneização, centrifugação, abertura de recipientes, transferência de culturas, agitação, descarte de materiais e mesmo pequenos derramamentos podem produzir gotículas ou aerossóis capazes de transportar agentes biológicos.
Nessas situações, o controle da exposição não pode depender exclusivamente de equipamentos de proteção individual. Sempre que tecnicamente possível, deve-se atuar sobre a própria fonte de exposição, impedindo ou reduzindo a dispersão do contaminante para o ambiente.
É justamente nesse contexto que se inserem as Cabines de Segurança Biológica – CSB.
A cabine como contenção primária
A Cabine de Segurança Biológica constitui uma medida de controle de engenharia destinada a estabelecer uma barreira entre o agente manipulado, o trabalhador e o ambiente.
O princípio parece simples: se determinado procedimento possui potencial para liberar material biológico, deve-se procurar realizar a operação dentro de um sistema capaz de conter essa liberação antes que ela alcance a zona respiratória do trabalhador ou se disperse pelo ambiente. Trata-se, portanto, de contenção na fonte.
Essa compreensão é importante porque a cabine não deve ser analisada isoladamente. Ela integra um sistema de biossegurança que envolve avaliação de riscos, instalações adequadas, procedimentos de trabalho, treinamento, descontaminação, manutenção e, quando necessário, utilização de equipamentos de proteção individual.
Uma cabine tecnicamente adequada pode ter sua capacidade de proteção significativamente reduzida quando utilizada incorretamente.
O papel dos aerossóis na exposição aos agentes biológicos
Um dos principais motivos para utilização das CSB é a possibilidade de geração de bioaerossóis.
Nem toda contaminação biológica ocorre por contato direto com sangue, secreções, culturas ou materiais contaminados. Determinados procedimentos podem transformar pequenas quantidades desses materiais em partículas ou gotículas suficientemente pequenas para permanecerem suspensas no ar.
Esse fenômeno merece especial atenção porque nem sempre a geração do aerossol é perceptível.
Não é necessário existir uma névoa visível para que haja partículas suspensas no ambiente.
Operações aparentemente simples podem gerar microgotículas. Equipamentos que trabalham em alta velocidade, processos de agitação e homogeneização, centrifugação e manipulação de recipientes contaminados podem aumentar significativamente essa possibilidade.
Portanto, a avaliação do risco biológico não deve perguntar apenas “qual agente está sendo manipulado?”, mas também: “De que maneira esse agente está sendo manipulado e qual a possibilidade de o procedimento produzir aerossóis?”
Essa segunda pergunta frequentemente determina a necessidade e o tipo de contenção.
O princípio de funcionamento
As Cabines de Segurança Biológica utilizam uma combinação de fluxos de ar controlados e filtração para estabelecer a contenção.
Um dos elementos fundamentais é o filtro HEPA – High Efficiency Particulate Air. Sua função é remover partículas transportadas pela corrente de ar, permitindo que o ar tratado seja recirculado ou eliminado de acordo com a configuração da cabine.
Entretanto, existe um conceito que precisa ser muito bem compreendido: filtro HEPA não é filtro universal.
Sua elevada eficiência para partículas não significa que possua a mesma capacidade para gases e vapores.
Essa diferença torna-se particularmente importante quando a atividade envolve simultaneamente agentes biológicos e substâncias químicas voláteis. Uma cabine adequada para contenção microbiológica pode não ser adequada para controlar vapores de solventes ou outros contaminantes químicos.
A seleção do equipamento, portanto, deve considerar todos os perigos envolvidos na operação, e não somente o agente biológico.
Nem todas as cabines oferecem a mesma proteção
As Cabines de Segurança Biológica são tradicionalmente divididas em Classes I, II e III. Essa classificação não representa simplesmente uma escala crescente de qualidade. Cada configuração possui características próprias e deve ser selecionada de acordo com a finalidade e o risco existente.
Cabine de Segurança Biológica Classe I
A cabine Classe I estabelece fluxo de ar direcionado para seu interior, reduzindo a possibilidade de que contaminantes produzidos na região de trabalho retornem ao ambiente ocupado pelo trabalhador.
O ar retirado da cabine passa por filtração antes de sua descarga.
Sua principal finalidade é proporcionar proteção ao trabalhador e ao ambiente. Entretanto, como o ar proveniente do próprio recinto entra diretamente na área de trabalho, não proporciona ao produto o mesmo grau de proteção contra contaminação externa.
Isso demonstra um princípio importante: proteger o trabalhador, proteger o ambiente e proteger o produto são objetivos diferentes.
Cabine de Segurança Biológica Classe II
As cabines Classe II são amplamente utilizadas porque procuram conciliar três objetivos:
proteção do trabalhador, proteção do ambiente e proteção do produto.
O fluxo de ar que entra pela abertura frontal contribui para impedir que o material contaminado escape da cabine. Simultaneamente, existe fluxo descendente de ar filtrado sobre a região de trabalho, reduzindo a possibilidade de contaminação do produto e de contaminação cruzada.
Existem diferentes configurações de cabines Classe II, especialmente quanto à quantidade de ar recirculado e à parcela descarregada para o exterior.
Essa diferença torna-se crítica quando também são manipulados produtos químicos.
Uma cabine que recircula parte significativa do ar pode ser perfeitamente adequada para determinada operação microbiológica e inadequada para outra que envolva substâncias químicas voláteis.
Portanto, não basta especificar: “Utilizar cabine Classe II.”
É necessário verificar qual configuração é compatível com o processo efetivamente realizado.
Cabine de Segurança Biológica Classe III
A Classe III representa uma condição de contenção muito mais rigorosa.
A operação ocorre dentro de um compartimento fechado e estanque, normalmente mantido sob pressão negativa. O trabalhador não introduz diretamente as mãos no ambiente interno da cabine; a manipulação é realizada através de luvas incorporadas à própria estrutura.
A entrada e retirada de materiais também exigem sistemas que preservem a contenção.
É uma solução destinada a situações nas quais o risco justifica um grau elevado de isolamento entre o trabalhador e o material manipulado.
Aqui o conceito de proteção assume sua forma mais evidente: em vez de proteger o trabalhador que está próximo do agente, procura-se impedir fisicamente que trabalhador e agente compartilhem o mesmo ambiente.
Fluxo laminar não significa segurança biológica
Existe uma confusão bastante comum entre Cabine de Segurança Biológica e cabine de fluxo laminar.
Os equipamentos podem ter aparência semelhante, utilizar filtros de alta eficiência e produzir fluxo de ar controlado. Entretanto, isso não significa que ofereçam a mesma proteção.
Uma bancada de fluxo laminar pode ter sido projetada prioritariamente para proteger o produto contra a contaminação proveniente do ambiente ou do operador.
Em determinadas configurações, o ar filtrado atravessa a área de trabalho e é direcionado justamente para o trabalhador.
Para uma operação que exige esterilidade do produto, isso pode ser perfeitamente coerente.
Para manipular material infeccioso, pode ser exatamente o contrário do que se deseja.
O equipamento estará protegendo o produto enquanto potencialmente direciona contaminantes para a zona respiratória do trabalhador.
Por isso: ambiente limpo não significa necessariamente ambiente seguro. E: fluxo laminar não significa necessariamente contenção biológica.
A seleção deve ser realizada pela função de proteção do equipamento e não por sua aparência ou simplesmente pela existência de filtro HEPA.
A avaliação de risco deve preceder a escolha da cabine
A escolha da CSB deve decorrer da avaliação da atividade.
Devem ser considerados, entre outros fatores, o agente biológico envolvido, sua forma de transmissão, concentração, quantidade manipulada, procedimento executado, possibilidade de geração de aerossóis e respingos, consequências de uma exposição acidental e presença simultânea de agentes químicos ou radiológicos.
Também devem ser avaliadas as consequências de falhas.
O que acontece se houver interrupção da exaustão? O que ocorre se o fluxo de ar for alterado? Existe recirculação? Para onde é conduzido o ar exaurido? Há possibilidade de liberação do contaminante para o laboratório? Essa análise demonstra por que a especificação da cabine não deve ser feita simplesmente pela atividade genérica ou pelo nome do agente.
O risco está na combinação entre agente, quantidade, procedimento e condições de exposição.
A cabine pode falhar mesmo funcionando perfeitamente
Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes do assunto.
Uma CSB pode estar mecanicamente perfeita e, ainda assim, oferecer proteção insuficiente em razão da forma como está sendo utilizada.
A contenção depende de um equilíbrio aerodinâmico. A abertura frontal da cabine não constitui uma parede física; a barreira é formada pelo movimento controlado do ar. E uma barreira de ar pode ser perturbada.
Movimentos rápidos dos braços para dentro e para fora da cabine, circulação intensa de pessoas próximas ao equipamento, abertura e fechamento de portas, correntes de ar provenientes de sistemas de climatização e até equipamentos instalados nas proximidades podem interferir no fluxo.
Da mesma forma, o excesso de materiais dentro da cabine pode bloquear grelhas e alterar a circulação interna.
Por isso, a instalação da CSB também constitui medida de segurança.
Não basta perguntar qual cabine comprar. É preciso perguntar onde instalar e como utilizar.
Organização do trabalho: do limpo para o contaminado
A disposição dos materiais no interior da cabine também influencia a segurança.
Uma prática adequada consiste em estabelecer um fluxo de trabalho orientado da região considerada limpa para a região contaminada.
Materiais estéreis ou ainda não utilizados não devem ficar misturados aos resíduos e objetos já contaminados. Equipamentos capazes de gerar aerossóis devem ser posicionados de forma compatível com o fluxo de ar e com a capacidade de captura da cabine.
Também é recomendável que todo o material necessário à atividade seja previamente organizado.
A entrada e saída contínua das mãos e dos objetos não representa apenas uma deficiência de organização. Cada movimento através da abertura frontal pode interferir na barreira aerodinâmica.
A organização do posto de trabalho, portanto, transforma-se em medida de controle da exposição.
Derramamentos e descontaminação
A possibilidade de derramamento deve fazer parte da avaliação de risco.
Pequenos derramamentos ocorridos no interior da cabine podem permanecer contidos, permitindo descontaminação controlada da área atingida.
Situações maiores podem atingir grelhas, superfícies inferiores e componentes internos, exigindo procedimentos mais abrangentes.
O princípio fundamental é impedir que a descontaminação se transforme em uma nova exposição.
Materiais retirados da cabine devem ser previamente descontaminados ou acondicionados de maneira segura. Resíduos contaminados devem permanecer contidos durante sua transferência para tratamento ou descarte.
A mesma preocupação se aplica às intervenções de manutenção.
Uma cabine utilizada durante anos para manipulação de agentes biológicos não pode ser tratada como um equipamento convencional quando precisar ser desmontada, reparada, transportada ou tiver seus filtros substituídos. A manutenção também é uma atividade potencialmente exposta.
Certificação: a aparência não demonstra desempenho
Outro erro é considerar que o funcionamento do ventilador significa que a cabine está oferecendo a proteção prevista. Não significa.
A integridade e o desempenho dependem de diversos parâmetros que precisam ser verificados periodicamente.
Entre eles estão velocidade e direção dos fluxos de ar, padrão de movimentação do ar, integridade dos filtros HEPA, existência de vazamentos, funcionamento dos sistemas elétricos e condições gerais do equipamento.
Testes com fumaça, por exemplo, permitem visualizar padrões de fluxo que normalmente são invisíveis.
Uma pequena alteração aerodinâmica pode representar perda importante de contenção sem produzir qualquer sinal perceptível ao trabalhador.
Por isso, a certificação não deve ser entendida como mera formalidade documental. Trata-se da verificação objetiva de que uma medida de controle de engenharia continua desempenhando a função para a qual foi projetada.
A cabine não substitui o sistema de biossegurança
A Cabine de Segurança Biológica constitui uma excelente medida de controle, mas não deve receber uma responsabilidade que não lhe pertence.
Ela não corrige procedimento inadequado. Não compensa treinamento deficiente. Não transforma uma instalação inadequada em instalação segura. Não elimina automaticamente todos os agentes presentes. Não substitui a avaliação de risco. E não dispensa os demais controles necessários.
Sua eficiência depende da integração entre engenharia, procedimento e comportamento operacional.
Essa talvez seja a principal mensagem a ser incorporada à Segurança e Saúde no Trabalho.
Quando existe possibilidade de geração de aerossóis ou dispersão de material contaminado, deve-se perguntar antes: É possível conter o agente na própria fonte?
Quando a resposta for positiva, a engenharia deve ocupar seu lugar na hierarquia das medidas de prevenção.
A verdadeira proteção não está simplesmente em colocar uma barreira sobre o trabalhador. Sempre que possível, está em impedir que o contaminante chegue até ele.