
Durante muito tempo, liderança foi tratada quase exclusivamente como uma competência voltada à produtividade. O bom líder seria aquele capaz de organizar pessoas, distribuir tarefas, cobrar resultados, resolver conflitos e conduzir sua equipe ao cumprimento das metas. Essa visão continua válida, mas tornou-se insuficiente.
No ambiente contemporâneo de trabalho, a liderança precisa ser analisada também sob outra perspectiva: o líder participa diretamente da construção das condições psicossociais às quais os trabalhadores estão submetidos.
Isso significa que a liderança pode funcionar tanto como fator de proteção quanto como elemento capaz de potencializar situações de estresse, insegurança, conflito, sobrecarga, desmotivação e sofrimento relacionado ao trabalho.
A questão, portanto, deixou de ser apenas: esse gestor entrega resultados?
É preciso acrescentar outra pergunta: de que maneira esses resultados estão sendo produzidos?
Liderar é produzir comportamento pelo exemplo
Talvez uma das características mais importantes da liderança seja também uma das mais negligenciadas: o comportamento do líder comunica muito mais do que seus discursos.
Uma organização pode possuir códigos de conduta, políticas de saúde mental, campanhas contra o assédio, programas de qualidade de vida e sofisticados valores corporativos. Porém, se a liderança cotidiana contradiz esses princípios, são as atitudes concretas — e não os documentos — que determinarão o comportamento da equipe.
O líder que estabelece uma regra e é o primeiro a descumpri-la ensina que aquela regra não é verdadeiramente importante. Aquele que exige respeito, mas humilha seus subordinados, demonstra qual comportamento efetivamente possui valor naquele ambiente. Da mesma maneira, quem cobra equilíbrio entre vida profissional e pessoal, mas envia mensagens durante a madrugada esperando respostas imediatas, cria uma regra informal muito diferente daquela declarada pela empresa.
A coerência entre discurso e comportamento aparece como elemento central da liderança: as regras precisam valer também para quem lidera, e a equipe tende a reproduzir a forma como é tratada.
É por isso que a cultura de uma organização não é formada apenas pelo que está escrito; ela é formada principalmente pelo comportamento que a liderança tolera, estimula, pratica ou recompensa.
E aqui começa uma importante conexão com os riscos psicossociais.
O líder como parte da organização do trabalho
Quando se fala em riscos psicossociais, existe uma tendência equivocada de procurar o problema exclusivamente no indivíduo: sua personalidade, sua capacidade de lidar com pressão, sua resiliência, seus problemas pessoais ou sua eventual fragilidade emocional.
Essa abordagem pode desviar a atenção daquilo que efetivamente precisa ser examinado: as condições em que o trabalho é organizado e realizado.
Carga de trabalho excessiva, metas incompatíveis com os recursos disponíveis, baixa autonomia, comunicação deficiente, conflitos interpessoais, indefinição de responsabilidades, falta de reconhecimento, insegurança, ausência de apoio e práticas inadequadas de gestão podem compor um ambiente psicossocial desfavorável.
E grande parte desses elementos passa, direta ou indiretamente, pela liderança.
O gestor normalmente participa da distribuição do trabalho, estabelece prioridades, acompanha resultados, fornece informações, administra conflitos, reconhece desempenhos, concede autonomia, interpreta erros e transmite à equipe as pressões provenientes dos níveis superiores da organização.
Portanto, o modo de liderar interfere concretamente na exposição psicossocial dos trabalhadores.
Isso não significa transformar todo gestor difícil em agente causador de adoecimento, tampouco estabelecer automaticamente um nexo entre determinada forma de liderança e qualquer transtorno mental. Seria tecnicamente precipitado. Significa reconhecer que determinadas práticas gerenciais podem integrar o conjunto de fatores organizacionais que precisam ser identificados e avaliados no gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho.
Cobrar não é o problema. O problema é como se cobra
Há uma simplificação perigosa no debate atual segundo a qual ambientes psicologicamente saudáveis seriam aqueles em que existe pouca cobrança. Não é assim.
Empresas existem para produzir resultados. Liderar envolve estabelecer objetivos, acompanhar desempenho, corrigir desvios, tomar decisões e, quando necessário, cobrar.
O próprio exercício da liderança pressupõe conduzir a equipe aos resultados ao mesmo tempo em que se constrói um ambiente capaz de favorecer motivação, inovação, desenvolvimento e boas relações interpessoais.
Portanto, exigência e proteção psicossocial não são conceitos incompatíveis.
Um gestor pode estabelecer uma meta elevada e explicar seus fundamentos, disponibilizar recursos, definir responsabilidades, acompanhar dificuldades e reconhecer o esforço da equipe. Outro pode estabelecer exatamente a mesma meta por meio de ameaças, humilhações públicas, comparações depreciativas e cobranças contraditórias.
A meta pode ser idêntica. A experiência psicossocial do trabalho será completamente diferente.
O problema não está necessariamente na cobrança, mas na combinação entre demanda, recursos disponíveis, autonomia, previsibilidade, apoio, justiça organizacional e comportamento da liderança.
Entre o líder autoritário e o líder ausente
Também seria um erro imaginar que somente o excesso de autoridade produz problemas.
Uma liderança excessivamente controladora pode reduzir a autonomia, concentrar decisões, sufocar iniciativas e produzir um ambiente de permanente vigilância. Mas a ausência de liderança também pode ser prejudicial.
O gestor que não decide, não orienta, não esclarece responsabilidades, evita conflitos e abandona a equipe diante dos problemas transfere aos trabalhadores uma parcela da incerteza que deveria administrar.
Há, portanto, dois extremos igualmente problemáticos.
De um lado está o líder que acredita precisar controlar tudo. Não delega, não escuta, atropela pessoas, exige continuamente, demonstra pouca tolerância ao erro e concentra as decisões.
No outro extremo encontra-se aquele que evita assumir responsabilidades, não estabelece limites, não se posiciona claramente e confunde autonomia com abandono.
Há um desequilíbrio: o excesso de ação pode produzir uma liderança tirânica, enquanto o excesso de passividade pode levar à omissão; liderar adequadamente exige saber quando conduzir diretamente e quando abrir espaço para a equipe.
Sob a perspectiva psicossocial, tanto o controle excessivo quanto a ausência de direção podem produzir tensão.
O trabalhador precisa de espaço para realizar seu trabalho, mas também precisa saber o que se espera dele.
O medo como método de gestão
Algumas organizações ainda confundem autoridade com medo.
O chefe que grita, constrange, ameaça constantemente com demissão ou utiliza a exposição pública como instrumento de correção pode até obter obediência imediata. Isso não significa que tenha construído liderança.
O medo possui uma característica particularmente perigosa para a SST: ele reduz a comunicação de problemas.
Quando trabalhadores percebem que relatar um erro produzirá punição ou humilhação, começam a esconder erros. Quando comunicar uma dificuldade é interpretado como incompetência, dificuldades deixam de ser comunicadas. Quando interromper uma atividade insegura significa enfrentar represálias, aumenta a possibilidade de que a atividade continue.
Esse fenômeno ultrapassa a questão de saúde mental e chega diretamente à segurança operacional.
Uma equipe que tem medo de falar pode esconder justamente as informações de que a organização necessita para prevenir acidentes.
Por isso, ambientes nos quais seja possível comunicar dificuldades, discordar tecnicamente, relatar falhas e reconhecer erros sem receio de retaliações constituem importante barreira organizacional.
Segurança psicológica também pode produzir segurança operacional.
O exemplo desce pela hierarquia
O comportamento organizacional possui uma característica interessante: ele tende a se propagar.
Se a alta direção trata os gestores intermediários por meio de pressão desmedida, humilhação e ameaças, existe a possibilidade de que esse padrão seja reproduzido nos níveis seguintes. Cada gestor descarrega sobre sua equipe a pressão que recebeu acima.
Cria-se uma espécie de cascata psicossocial.
A liderança superior pressiona a gerência; a gerência pressiona a supervisão; a supervisão pressiona a operação.
No final da cadeia, a empresa pode se surpreender com indicadores de absenteísmo, conflitos, rotatividade, afastamentos, acidentes, perda de produtividade ou deterioração do clima organizacional sem perceber que parte do problema nasceu do próprio modelo de gestão.
O contrário também é verdadeiro.
Lideranças que demonstram respeito, coerência, disponibilidade, responsabilidade e capacidade de ouvir ajudam a estabelecer esses comportamentos como padrão esperado.
A força do exemplo é especialmente relevante porque os trabalhadores observam como o líder se comporta diante das situações reais — inclusive se assume riscos e consequências junto da equipe — e daí constroem sua confiança.
O líder não deve produzir seguidores dependentes
Existe ainda outra dimensão importante da boa liderança: desenvolver pessoas capazes de pensar e agir com autonomia.
O líder inseguro sente-se ameaçado por profissionais competentes. Centraliza conhecimento, restringe decisões e constrói dependência.
O líder maduro faz exatamente o contrário.
Investe no desenvolvimento da equipe, compartilha conhecimento, delega responsabilidades e cria condições para o surgimento de novas lideranças. Um dos desafios apresentados nos materiais analisados é justamente desenvolver pessoas competentes, formar novos líderes e construir equipes integradas e comprometidas.
Essa característica também possui dimensão psicossocial.
Autonomia, participação e possibilidade de desenvolvimento podem contribuir positivamente para a experiência do trabalhador. Já a microgestão permanente, a falta de confiança e a impossibilidade de participar das decisões relacionadas ao próprio trabalho podem funcionar na direção contrária.
Delegar, entretanto, não significa abandonar.
Autonomia sem recursos, orientação ou definição de responsabilidades pode simplesmente transferir pressão para o trabalhador.
A boa liderança consegue equilibrar autonomia e suporte.
O risco de transformar liderança saudável em permissividade
Existe outro cuidado necessário.
A crescente preocupação com saúde mental e riscos psicossociais não pode criar organizações incapazes de administrar desempenho.
O gestor não deve sentir medo de orientar, corrigir comportamentos inadequados, cobrar responsabilidades ou avaliar resultados simplesmente porque determinada conversa poderá produzir desconforto.
Nem todo desconforto é risco psicossocial. Nem toda cobrança caracteriza assédio. Nem todo conflito representa violência psicológica. E nem toda frustração decorrente do trabalho significa adoecimento ocupacional.
Trabalhar envolve desafios, responsabilidades, divergências, necessidade de adaptação e avaliação de desempenho.
O objetivo da prevenção não deve ser eliminar qualquer situação desagradável do trabalho — algo praticamente impossível —, mas impedir que a organização do trabalho produza exposições inadequadas, persistentes ou desnecessárias capazes de deteriorar as condições psicossociais.
O equilíbrio é essencial.
Inclusive porque liderança eficaz exige saber quando agir e quando não agir, quando cobrar e quando apoiar, quando assumir diretamente uma situação e quando permitir que a equipe desenvolva suas próprias competências. Esse equilíbrio entre condução e espaço para desenvolvimento é apontado como característica fundamental do líder efetivo.
O líder como medida de prevenção
Quando uma empresa identifica riscos psicossociais, uma das respostas mais fáceis é criar uma palestra. Pode ser útil. Mas dificilmente será suficiente se o problema estiver na organização do trabalho.
Não adianta ensinar técnicas individuais de gerenciamento do estresse para trabalhadores submetidos diariamente a metas contraditórias, ausência de recursos, comunicação deficiente ou liderança abusiva.
Nesse cenário, treinar e desenvolver lideranças pode constituir uma verdadeira medida organizacional de prevenção.
Isso envolve capacitar gestores para comunicar expectativas com clareza, planejar adequadamente demandas, administrar conflitos, fornecer feedback, reconhecer desempenho, delegar, identificar sinais de deterioração do ambiente de trabalho e compreender os efeitos que suas decisões provocam sobre a equipe.
Também significa avaliar o próprio líder.
Uma empresa que mede somente quanto o gestor entrega conhece apenas metade de seu desempenho. É preciso observar também como ele consegue aquilo que entrega.
Um gestor pode apresentar excelentes indicadores financeiros enquanto destrói sua equipe no processo.
No curto prazo, parece eficiente.
No médio prazo aparecem conflitos, pedidos de desligamento, perda de profissionais experientes, afastamentos, queda na cooperação e dificuldades de retenção.
O resultado que parecia excelente talvez apenas estivesse sendo financiado por um custo humano ainda não contabilizado.
A liderança também precisa ser protegida
Há, contudo, uma questão frequentemente esquecida: o próprio líder está exposto aos riscos psicossociais.
Gestores também recebem cobranças, enfrentam conflitos, precisam tomar decisões impopulares, administrar pessoas, cumprir metas e responder simultaneamente à direção e aos subordinados.
Muitas vezes ocupam justamente o ponto de encontro das pressões organizacionais.
Exigir que gestores sejam emocionalmente equilibrados, disponíveis, motivadores e capazes de administrar perfeitamente suas equipes enquanto são submetidos a sobrecarga, metas incompatíveis, jornadas excessivas e ausência de autonomia é uma contradição.
Portanto, uma política séria de prevenção não pode simplesmente transformar o líder em culpado por todos os problemas psicossociais da organização.
É necessário investigar também as condições nas quais esse líder exerce sua própria função.
Liderança saudável não nasce apenas de treinamento comportamental. Ela depende igualmente de estrutura organizacional, recursos, autoridade compatível com a responsabilidade e condições adequadas para gerir pessoas.
Afinal, que tipo de líder sua empresa está formando?
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para as organizações nos próximos anos.
Não basta procurar líderes carismáticos.
Também não basta promover o melhor técnico da equipe e presumir que competência técnica automaticamente produzirá competência para gerir pessoas.
A liderança contemporânea exige conhecimento do negócio, capacidade de enfrentar problemas, visão de futuro, orientação para resultados, desenvolvimento de pessoas, construção de equipes e disposição permanente para evoluir.
Mas exige algo adicional: consciência sobre o impacto humano das decisões gerenciais.
O líder influencia prioridades, relações, comportamentos, percepção de justiça, autonomia, comunicação e confiança. Por isso, quando uma organização avalia seus riscos psicossociais sem analisar a qualidade de suas lideranças, provavelmente está deixando de examinar uma parte importante do problema.
O líder não precisa ser psicólogo.
Não precisa diagnosticar ninguém.
Não precisa transformar o ambiente de trabalho em espaço terapêutico.
Precisa, porém, saber liderar.
Isso significa exigir sem humilhar, corrigir sem constranger, ouvir sem perder autoridade, delegar sem abandonar, cobrar sem ameaçar, reconhecer sem favorecer, decidir sem arbitrariedade e, sobretudo, comportar-se de acordo com aquilo que exige dos demais.
No passado, talvez fosse suficiente dizer que as pessoas não deixam empresas; deixam maus líderes.
Hoje podemos avançar um pouco mais: um bom líder não é apenas aquele que consegue fazer sua equipe produzir mais. É aquele que consegue produzir resultados sem transformar as pessoas no recurso consumível do processo.
E, sob a perspectiva da Segurança e Saúde no Trabalho, essa diferença deixou de ser apenas uma questão de gestão de pessoas.
Passou a ser também uma questão de prevenção.