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QUANDO NÃO EXISTE MAIS O QUE MEDIR: RECONSTRUINDO EXPOSIÇÕES DO PASSADO

Uma das frases mais comuns em processos judiciais envolvendo agentes químicos é: “Não existem avaliações quantitativas da época.” A partir daí, muitas análises praticamente terminam. Se ninguém mediu quando o trabalhador executava aquela atividade, pareceria impossível determinar qualquer coisa sobre a intensidade da exposição. Mas existe um problema lógico nessa conclusão.

A inexistência de uma medição histórica não significa necessariamente a impossibilidade de estimar uma exposição histórica.

É exatamente nesse espaço que a modelagem retrospectiva pode assumir enorme importância.

Não podemos voltar ao passado, mas podemos reconstruí-lo

Imagine uma operação realizada quinze anos atrás utilizando um solvente. A linha produtiva já foi modificada. O equipamento não existe mais. O produto foi substituído. Os trabalhadores não executam mais aquela atividade. Como realizar uma avaliação quantitativa hoje? Reproduzir artificialmente a operação pode ser inviável ou até perigoso. Entretanto, podem ainda existir: fichas técnicas do produto, antigas FISPQ/FDS, projetos da instalação, dimensões do recinto, especificações de ventilação, registros de produção, procedimentos operacionais, fotografias, vídeos, depoimentos e documentos informando quantidades utilizadas.

Cada uma dessas informações constitui uma peça do quebra-cabeça. A partir delas, eventualmente pode ser possível reconstruir o cenário.

O objetivo não é fabricar uma precisão inexistente

Aqui reside um cuidado essencial, sobretudo em perícias.

Uma reconstrução matemática não deve ser apresentada como uma máquina do tempo capaz de revelar: “o trabalhador estava exposto exatamente a 42,7 mg/m³.”

Isso seria tecnicamente temerário quando os parâmetros históricos apresentam incerteza.

O caminho mais defensável é trabalhar com cenários. Por exemplo:

  • cenário de menor emissão plausível;
  • cenário mais provável;
  • cenário conservador ou de maior exposição razoavelmente possível.

Se nos três cenários o resultado permanecer muito abaixo do valor de referência, temos uma informação relevante. Se todos ultrapassarem amplamente o limite, também.

O problema mais difícil aparece quando a conclusão muda conforme pequenas alterações nas premissas.

Nesse caso, a resposta científica adequada talvez seja simplesmente: há incerteza suficiente para impedir uma conclusão categórica.

E reconhecer incerteza não enfraquece uma perícia. Pelo contrário. Demonstra seus limites.

Reconstruir exige compreender o processo

A modelagem retrospectiva não começa na calculadora. Começa na investigação. Qual produto era utilizado? Em qual concentração? Qual quantidade? O recipiente permanecia aberto? Havia aquecimento? Qual era a temperatura aproximada? Quanto durava a tarefa? Quantas vezes por jornada? Qual era o volume do ambiente? Existia ventilação geral? Havia exaustão localizada? Qual era a distância entre a fonte e a zona respiratória? Outros trabalhadores realizavam simultaneamente atividades geradoras do mesmo contaminante?

Perceba que cada resposta melhora a reconstrução.

Por isso, uma boa modelagem retrospectiva exige muito mais do que habilidade matemática. Exige investigação técnica do trabalho real.

O depoimento também pode virar dado técnico

Isso é particularmente interessante em perícias. Considere que várias testemunhas afirmem: “O operador utilizava aproximadamente dois recipientes por turno.”

Se conhecermos o volume de cada recipiente e a concentração do produto, essa informação pode ajudar a construir uma faixa de consumo.

Outra testemunha relata: “A porta permanecia aberta durante toda a operação.”

Outra: “Havia um exaustor na parede.”

Esses elementos não fornecem automaticamente vazão, eficiência ou taxa de emissão.

Mas ajudam a estabelecer hipóteses e limites para os cenários. A modelagem permite transformar informações qualitativas, quando tecnicamente possível, em parâmetros quantitativos ou faixas plausíveis.

E se faltarem dados?

Esse é justamente o ponto em que o perito precisa demonstrar prudência. Modelagem não autoriza inventar parâmetros. Quando determinado dado é desconhecido, existem algumas possibilidades: obtê-lo por documentos, utilizar informação tecnicamente justificável de processo equivalente, trabalhar com intervalo de valores ou realizar análise de sensibilidade.

O que não se pode fazer é escolher silenciosamente o número que produz o resultado desejado. Em matéria pericial, as premissas precisam estar claramente expostas.

Uma nova dimensão para a perícia ocupacional

Durante muito tempo, a perícia de exposição ficou excessivamente dependente da pergunta: “Existe laudo quantitativo da época?”

Talvez devêssemos acrescentar outra: “Existem informações suficientes para reconstruir tecnicamente aquela exposição?”

Nem sempre existirão. Mas, em muitos casos, sim. A ausência de uma bomba de amostragem no passado não apaga as leis da física, as propriedades químicas das substâncias nem as características do processo que existia naquele momento.

O passado não pode ser medido novamente. Mas, em determinadas circunstâncias, pode ser tecnicamente reconstruído.

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